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A Odisseia (2026) - Impressões

  • Foto do escritor: Ábine Fernando Silva
    Ábine Fernando Silva
  • há 21 horas
  • 3 min de leitura

Direção: Christopher Nolan

Roteiro: Christopher Nolan

Elenco principal: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Lupita Nyong'o, Zendaya, Charlize Theron, Samantha Morton, John Leguizamo, Himesh Patel, Elliot Page


Matt Damon interpreta Odisseu em "A Odisseia" de Chritopher Nolan
Matt Damon interpreta Odisseu em "A Odisseia" de Chritopher Nolan

Narrativa que evoca a tragédia das guerras de invasão e suas consequências nefastas, “A Odisseia” de Christopher Nolan articula-se como uma interpretação livre do clássico de Homero, adotando, um olhar mais moderno e heterodoxo, à medida que propõe, de maneira geral, uma subversão do escopo épico tradicional e uma crítica aos imperialismos de nossos tempos. Neste sentido, toda aquela magnitude heroica da jornada grega disposta no poema antigo é mitigada pela validação da ignomínia dos invasores e pela “maldição” de seus destinos. Nolan rejeita em sua trama essa ideia dos grandes feitos de um herói, inerentes ao gênero, dando vasão ao drama da culpa e do autorreconhecimento da própria desgraça e vilania. Não importa mais aqui o grande ardil do cavalo que pôs abaixo as muralhas de Tróia. O engenho de Odisseu (Matt Damon) e suas peripécias suscitam desconforto, vergonha e indignação, uma vez que sua jornada até a ilha de Calipso (Charlizie Theron) se desdobra, em grande medida, em obstinação egoísta, violência, arbitrariedade e oportunismo, sendo rememorada a duras penas sob o filtro da conscientização e da culpa. Nada de heroísmos ou triunfalismos na retratação da guerra e dos perigos do regresso, ao contrário, Odisseu e seus homens encarnam os visitantes indigestos, tornando legítima a hostilidade daquele mundo mítico, inclusive, enquanto resistência. Por outro lado, me pareceu irônico que ao forasteiro maldito (talvez o líder dos povos do mar?) lhe coubesse a tarefa de banir de forma exemplar os pretendentes que ocuparam seu palácio em Ítaca, pondo sob ameaça Penélope (Anne Hathaway), Telêmaco (Tom Holland) e seus criados mais fiéis. A mensagem do filme é categórica: os invasores jamais serão bem-vindos, desta forma, a resistência se converte em virtude e o uso da violência recurso necessário. Ainda dentro dessa leitura moderna que Nolan propõe da Odisseia, na minha visão um aceno claro ao papel dos Estados Unidos e de Israel em suas guerras imperialistas atuais, impossível não identificar na figura do protagonista vivido por Damon toda uma espécie de sentimento e busca cristã por autorredenção que antes de concretizar-se percorre o caminho do arrependimento em relação aos próprios pecados perpetrados em Tróia. Relembrar sua trajetória e contá-la a Calipso funciona também como reconhecimento do pouco caso de Odisseu para com as leis divinas e, no fim das contas, um exercício de cura e de reconexão consigo mesmo (seus anseios) e com o sagrado. Em suma, tudo que o herói relembra antes dessa sua reconciliação adquire um ar pesado e lúgubre justamente porque sua condição pregressa de arauto da destruição e arrogância em desafiar os deuses acaba por lhe impor o martírio de se distanciar do lar e fugir ao próprio destino. É interessante como a obra integra bem essa ideia disruptiva do épico em sua estilística realista, cuja montagem não linear e fragmentada produz bastante impacto emocional e reflexão moral. A decupagem em IMAX, o uso reiterado da câmera íntima e documental, além da escolha por efeitos especiais artesanais tornam o realismo do filme muito mais dramático e imersivo, conferindo, ao mesmo tempo, peso e tensão aos eventos, inclusive os fantásticos, e privilegiando uma encenação carregada que impregna o elemento épico daquele ressentimento do herói. Dois momentos do filme, em especial, me impressionaram bastante pela concepção visual menos ambiciosa e mirabolante em termos de cenografia e personagens, mas profundamente intensos do ponto de vista dramático e emotivo (o episódio do Hades e das Sereias). Nesses casos, Nolan conseguiu evocar toda uma atmosfera de terror, mistério e loucura, lançando mão de um realismo bem direto e cru que evidencia a força de certas falas e diálogos do roteiro, ao passo em que promove a profusão em cena, sobretudo, das performances de Elliot Page e Matt Damon. A Odisseia de Nolan acerta em esvaziar uma suposta glória da guerra e desmistificar a grandeza moral e civilizatória dos impérios. Aos “heróis”, símbolos da perfídia e da desorientação, restam-lhes a possibilidade de redenção ou os espólios da tragédia.


Nota: 8,5 / 10


Por: Ábine Fernando Silva

 
 
 

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